Era uma noite como outra qualquer…
Mas, logo que amanheceu, ela sabia que o dia seria especial.
Apesar do tempo cinzento e frio, a chuva veio e trouxe novas perspectivas.
A menina fez o que devia fazer;
Falou o que devia ser dito e esperou.
Enquanto sentava na escada, pensando nos rumos que poderia tomar, chovia.
Parada – perplexa com a quantidade de água que caía – viu, entre tantas pessoas, um casal e seu cachorro.
Eles se aproximaram.
E sentaram perto dela, encharcados.
Não demorou para que a menina encarasse o cão, também ensopado.
Ficou explícito que ela gostava de animais, inclusive daquele vira-lata descabelado.
A mulher, então, puxou papo. “Olha Dig, moça gostou de você!”, disse num tom de voz simpático. A menina, já corada, respondeu com um singelo sorriso.
Ela subiu os degraus, aproximando-se cada vez mais. Contava histórias sobre seu “fiel companheiro” – enquanto ele a acompanhava na subida.
A menina e a mulher ficaram frente a frente.
“Ontem eu estava na Praça da Sé. Os policiais chegaram e começaram a expulsar todo mundo que estava lá. Eu avisei para eles não se aproximassem do Dig, senão…”, dizia de forma enfática.
Permaneceram ali durante vários minutos, compartilhando suas experiências e seus sentimentos mútuos: o amor e o respeito pelos animais.
A menina percebeu ali, naquele momento, que o amor transcende qualquer barreira.
Ao contrário das pessoas que estavam ao redor, ela não teve medo ou desconfiança. Simplesmente se deixou levar. Deu a única coisa que a mulher pediu: uma conversa.
Realidades tão paradoxais que, naquele instante, se fundiram. Tornaram-se amigas, mesmo que por pouco tempo, num único dia.
Por fim, ela se despediu e desejou “tudo de bom e um feliz natal”.
Seguiu em frente. Sem rumo, sem dinheiro e sem comida.
Apenas ela, seu marido e seu fiel companheiro, o Dig.